Entrevista Jairo Jorge ao jornal Metro

Jairo Jorge

 

Jairo Jorge: ‘As mudanças vão ocorrer nos primeiros cem dias’

O candidato do PDT ao Piratini diz que é preciso começar o mandato já criando maioria na Assembleia Legislativa para poder aprovar projetos que mudam as estruturas do estado

Candidato ao governo do estado pelo PDT, Jairo Jorge  aposta no detalhamento dos seus projetos para ganhar a simpatia do eleitor. Ao mesmo tempo, alfineta os adversários ao Piratini, colocando-se contra privatizações, parcelamento de salários e outras saídas para os problemas financeiros do estado que considera não terem dado certo. Confira os principais trechos da entrevista, concedida, na semana passada, na sede do Metro Jornal aos jornalistas Maicon Bock e André Mags: 


Metro: O sr. foi o único candidato a governador a visitar todos os 497 municípios gaúchos. Surgiu alguma ideia que será aplicada no seu governo, se for eleito?

Muitas. Uma delas foi a necessidade da regionalização. Pude testemunhar que existem muitos Rio Grandes dentro do Rio Grande. E pude ouvir dos prefeitos, dos empresários, produtores rurais, agricultores, servidores públicos sobre a ausência do estado. E, ao mesmo tempo, pude comparar com Santa Catarina, que cresceu de forma vertiginosa exatamente porque regionalizou o estado, criou secretarias e depois agências de desenvolvimento regional e estabeleceu políticas regionais de desenvolvimento. A partir dessa escuta com 28 mil gaúchos, pude ser testemunha da necessidade de uma regionalização. 


Metro: O sr. propõe alterar a estrutura do estado, em vez de 17 secretarias, ter dez escritórios. Alem disso, escritórios regionais. Do que tratariam? 

Estou propondo escritórios regionais, cuja quantidade será definida e os Coredes serão um ponto de partida. Os escritórios regionais vão centralizar os serviços nas regiões. E estou propondo apenas dez estruturas de Estado. Serão escritórios, também. Vão tratar de cinco temais finalísticos e cinco áreas-meio, serão temáticos, tratarão de educação, segurança, desenvolvimento, infraestrutura… Estou propondo ainda somente três níveis hierárquicos para que não gere uma dispersão: o governador e o secretário, que é quem formula, o diretor, que é quem desenvolve, e o gerente, que é quem executa. Hoje, chega a ter sete ou oito níveis. 


Metro: De que tratariam esses escritórios regionais? 

Os escritórios regionais de governo vão coordenar as ações no território. Hoje, cada órgão divide o estado de um jeito. Nós vamos ter uma unicidade territorial. E terá um escritório regional com um secretário de estado, que vai chefiar esse escritório regional, será uma pessoa daquela região. Portanto, uma pessoa conhecida, que vai dialogar com os prefeitos daquela região. Vai ter uma equipe que vai cuidar da educação, da saúde, da segurança, das estradas. Hoje, não há uma governança regional para garantir que o que foi decidido seja aplicado. 


Metro: As pesquisas mostram o sr. em terceiro ou quarto lugar, indicando segundo turno entre Sartori e Leite. Como o sr. avalia esse cenário? 

Da mesma forma que ocorreu nas últimas eleições, especialmente em 2014. Se tomássemos as pesquisas nessa época, quem chegou no segundo turno estava em terceiro. Então, é muito cedo ainda. O eleitor está mais preocupado, neste momento, com a eleição nacional do que para governador. E, nos últimos dias, o cidadão gaúcho vai analisar quem tem densidade, quem tem propostas. E, portanto, eu estou no páreo. Tenho propostas, tenho projeto, não estou atacando ninguém. 


Metro: Na última entrevista ao Metro, o sr. disse que, ao recuperar as fundações extintas pelo governo Sartori, iria pensar em um novo modelo para elas. O sr. já tem ideia de como será? 

Sim. Vou criar uma agência de inovação, vou recuperar as equipes científicas, rever essa decisão do governador. Vou recuperar todo o trabalho científico, criar a partir de estruturas já existentes, fortalecer a Fapergs para ela ser uma grande agência de inovação, recuperando um núcleo de inovação industrial, um de saúde humana, um de biotecnologia e um de biodiversidade, recuperando as equipes e o trabalho feito pela Cientec, Fepagro, Fepps e FZB. Com relação à FEE e à Metroplan, vão constituir uma instituição que vai pensar o futuro do Rio Grande do Sul.

 

Metro: Na mesma entrevista, em junho, o sr. disse que gostaria de baixar o ICMS a partir do primeiro ano de mandato. Como seria possível? 

Vou propor já a partir de 1º de julho de 2019 a entrada em vigor da Lei do Gatilho. Nós vamos estabelecer um gatilho de 0,25% na alíquota geral, caindo de 18% para 17,75%, e, nos combustíveis, um gatilho de 1%, caindo de 30% para 29%. Até 30 de junho de 2020 nós vamos avaliar. Havendo aumento da arrecadação, dispara o gatilho, diminui para 17,50% e 28%, e assim sucessivamente. O teto será 18% e 30%, mas não terá piso. Quanto mais crescermos, mais eficiente for a arrecadação, mais reduziremos as alíquotas. Ou seja, vamos pagar menos impostos à medida que aumentamos a arrecadação. Se nós mantivermos o ICMS como está até 2023, teremos um processo de desindustrialização brutal no estado. Já estamos vivendo isso, muitas lojas fechando ou já fechadas, meio milhão de desempregados.

Metro: O sr. já disse que é contra o Regime de Recuperação Fiscal. Qual é a alternativa? 

Temos que renegociar. Temos que reestruturar essa dívida e fazer uma nova discussão sobre indexadores. Essa dívida se tornou o que é porque houve uma negociação falha. Queria lembrar que em 1996 o governador Antônio Britto (PMDB), junto ao ministro Pedro Malan, da Fazenda, disse que a dívida do Rio Grande do Sul estava liquidada. E, na verdade, a preços de dezembro de 2017, esses valores, que eram de R$ 26 bilhões, saltaram para R$ 59 bilhões, que é hoje o que estamos devendo. E isso é que está afetando a economia. E esse mesmo formato está sendo colocado, um formato que deu errado, levou à crise. Temos que discutir com o governo federal um caminho para a questão da Lei Kandir. Nós temos aí R$ 50 bilhões e não vou abrir mão disso. Foi o governo nacional do PSDB que criou a Lei Kandir e acabou com a economia do Rio Grande do Sul. 

 

Metro: Dentro das discussões sobre a adesão ao Regime de Recuperação Fiscal, o sr. é contrário à privatização de CEEE, Sulgás e CRM. Qual a alternativa para essas empresas? 

A CEEE, o grupo, deu lucro de mais de R$ 300 milhões: a geradora deu R$ 390 milhões e a distribuidora teve um prejuízo de R$ 80 milhões. Nós temos Corsan, Sulgás, CRM, Banrisul. Todas essas empresas têm que dar mais lucro ainda. O que eu farei é uma gestão eficiente, profissional. E aumentando essa lucratividade nós vamos aplicar em um fundo para a educação. Não é lugar para compadrios e filiados políticos. São empresas que têm que ter uma governança, regras, transparência e uma gestão marcada por resultados.

 

Metro: Pode haver a extinção de alguma estatal no seu governo? 

Isso nós vamos avaliar. Obviamente que existem, hoje, instituições que estão, muitas vezes, sobrepostas. Veja que nós temos três estruturas para ver a questão das estradas, o Daer, a EGR e a secretaria. Eu penso que tem que ter uma estrutura só. Vamos fazer um bom diagnóstico das empresas. Eu sou terminantemente contrário à privatização do Banrisul. 

 

Metro: Caso o sr. seja eleito, em quanto tempo os servidores terão os salários pagos em dia? 

Primeiro, eu vou acabar de imediato com o parcelamento. Nós vamos pagar integral, todos no mesmo dia. Vou estabelecer um cronograma. Não é possível fazer isso no primeiro mês. E nem precisa levar um ano para fazer isso. A minha meta é que no primeiro semestre vou trabalhar para que consiga trazer para o último dia útil do mês vigente, que é o que está na Constituição. 

 

Metro: O sr. acha que os cofres do estado têm condições de pagar o piso dos professores? 

Isso tem que ser pactuado com os professores e estabelecer uma forma de realização. Tem que ser melhorado e aperfeiçoado o plano de carreira. Quando ele foi criado, não havia o mestrado, o doutorado, como existe hoje. Temos que fazer um debate sincero com os professores, garantir os seus direitos, mas prever um caminho que construa essa solução. Eu fiz isso como prefeito. Resolvi um problema grave que os professores tinham, uma gratificação de docência que, aposentados, perdiam 30% do salário. E o salário, da nova carreira dos professores, é R$ 4.214,34. É o maior salário, hoje, do interior do estado. E é um dos maiores do Brasil. 

 

Metro: O sr. é favorável a PPPs. Em que áreas haveria parcerias com a iniciativa privada? 

Estradas, energia, toda a parte de infraestrutura, portos, aeroportos. Mesmo na Corsan, que hoje tem uma PPP, que tem que ser, obviamente, avaliada, ver se não tem algum equívoco, algum erro. Mas eu acredito em parcerias público-privadas no saneamento, que é um grande desafio. A PPP não pode ser feita para destruir o estado. Tem que ser feita para fortalecer o estado. 

 

Metro: Quando o sr. era do PT, lá em Canoas, o sr. articulou a construção de um presídio por meio de PPP no governo Yeda Crusius (PSDB), mesmo sendo da oposição. 

Desde que não seja a administração do preso. Um pouco diferente do PSDB, que pensava na execução penal. Eu defendo mais a parte de gestão, que envolve hotelaria, o processo de ressocialização. Inclusive defendo uma gestão por resultados. Os índices de ressocialização são positivos? Os cursos foram dados? As pessoas têm que sair melhor do que elas entraram. Isso pode ser valorizado e premiado exatamente em cima dos resultados. Alcançou? A taxa de reincidência diminuiu? Vamos premiar isso, vamos pagar por isso. 

Quem é Jairo Jorge

Metro: Quais a principais medidas para a segurança? 

Hoje temos uma grande preocupação com os homicídios. O índice de roubo de carros também está alto. Vamos ter três focos. O combate aos crimes contra a vida, o tráfico de drogas e armas e o furto e roubo de carros. Eu proponho cinco ações: armar, equipar e ampliar as equipes das forças de segurança. Isso tem que ser feito de forma progressiva. Não adianta chamar 4 mil homens de uma hora só. Tem que ter treinamento. Isso tem que ser feito de forma semestral, progressiva, para que a gente possa repor os que se aposentam, mas também ampliar. A segunda meta é inteligência. Tem que ter sistemas de monitoramento, câmeras, cerca eletrônica, informação para combater o crime. Nossa polícia ainda é analógica, tem que ser digital. O terceiro eixo é a integração policial. Às vezes, temos superposição. E trabalhar fortemente com o que eu chamo de polícia de proximidade, que é o policiamento comunitário. O quarto eixo é a questão da inclusão. Temos que ter um projeto para disputar o jovem que está sendo cooptado pelo crime, aquele jovem que sai da escola. Temos que ter capacidade com educação profissional, ensino técnico, cultura, esporte, escola de tempo integral. O quinto, um novo sistema prisional, que tenha novos presídios, com trabalho e estudo. E, ao mesmo tempo, criar sistemas mais leves, as Apacs [Associação de Proteção e Assistência ao Condenado], que deram muito certo em Minas, São Paulo e Paraná. Elas permitem um caminho de recuperação, têm um custo que é um terço do custo do preso. E vamos ter também um presídio que estou propondo para no máximo 200 presos, em regime disciplinar diferenciado, para conter os chefes de facções. Em vez de ter um presídio federal, um presídio estadual de segurança máxima, exatamente para não conectar as facções que existem no Rio Grande do Sul com as que dominam, hoje, o Brasil. 

 

Metro: Que iniciativas o sr. propõe para melhorar a saúde? Quando o sr. era prefeito em Canoas era muito recorrente a ambulancioterapia?

Canoas tem um sistema bastante robusto, mas algumas especialidades nós tínhamos que recorrer a Porto Alegre. Na medida em que fui ampliando o serviço, consegui reduzir isso. E Canoas passou a ser referência. O Hospital Universitário de Canoas passou a atender mais de 140 cidades, na medida em que se tornou um hospital regional. Mas temos um problema sério no Rio Grande. Não temos uma regionalização efetiva, existe muita sobreposição ou ausência. Às vezes uma pessoa tem que percorrer 300 km para ir a uma UTI neonatal. Eu defendo duas medidas: policlínicas regionais, usando estruturas já existentes. São serviços de média complexidade, consultas e exames. Porque a ausência da média complexidade acaba levando à alta complexidade porque a pessoa não é tratada. Acoplar essas policlínicas com telemedicina, porque em muitos lugares não se tem os profissionais. E estou estudando uma nova forma de financiamento para a saúde, para que possa garantir que o recurso chegue aos hospitais. Os 80 hospitais de pequeno porte estão praticamente fechando as portas, e isso vai agudizar a ambulancioterapia.

 

Metro: O sr. fala em implantar metas na gestão, Quais seriam as metas na segurança, saúde e educação?

Vamos discutir isso. Vou apresentar metas a partir das 50 propostas do plano de governo. Vamos estabelecer ações para cada área e semestralmente vamos ter metas de governo que vão ser cumpridas, e vou conectar isso à resolubilidade. 


Metro: Para viabilizar seus projetos, o sr. fala em financiamentos internacionais. Mas o governador Sartori já disse que, hoje, o estado não tem condições de pedir nem um centavo. 

O governador Sartori usou todos os recursos que o governador anterior deixou. O próximo governador será o único que não terá nenhum recurso. Temos que ter capacidade de buscar recursos, mostrar que há um novo ambiente no estado, e a melhoria das finanças vai repercutir na imagem positiva do estado.

Metro: Ciro Gomes, candidato à Presidência pelo seu partido, disse que o estado não tem saída sem ajuda da União. O que o sr. acha dessa afirmação, sabendo que no ano que vem o presidente pode ser Jair Bolsonaro ou Fernando Haddad, que são os que lideram as pesquisas?

Se for a vontade de Deus e dos gaúchos, vou ser eleito governador de todos e vou liderar o Rio Grande do Sul independentemente de quem estiver na Presidência da República. Não existe governador de oposição nem de situação. Tem que ser o governador de todos, tem que ter capacidade de buscar, com quem estiver lá, o melhor para o estado. Nem se subordinar nem afrontar. Vamos construir com diálogo e com firmeza. De cabeça erguida. Hoje, estamos de joelhos. 


Metro: Vimos no governo Sartori uma forte oposição freando diversas iniciativas. Como o sr. vai trabalhar se encontrar oposição forte? 

O governador tem que ter inteligência emocional e habilidade para construir maioria. Isso tem que ser feito no início do governo. Todas as mudanças que estou propondo vão ocorrer nos primeiros cem dias de governo. 


Metro: O sr. fala em premiar municípios que melhorem na educação, concedendo mais recursos. De que forma fazer isso, se o estado não tem dinheiro? 

Isso passa pela recuperação das finanças. Na verdade, é uma premiação que envolve duas questões: quem mais investir na educação, que tem que ser uma meta, mas conectado com o resultado. Temos que ter uma grande rede para enfrentar o problema da sonegação. Minha visão é que muitos paguem pouco, assim como é nos Estados Unidos, que tem um modelo mais justo que o nosso. As prefeituras têm uma grande capilaridade, elas podem nos ajudar a enfrentar esse problema.

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